(via recontador)
E mesmo que tudo dê errado, mesmo assim, não tem problema. Eu deito no telhado de uma casa qualquer, olho pro céu e invento uma nuvem que chove sorrisos, bem em cima de mim.
Apesar dos dilemas filosóficos e científicos sobre a origem da consciência e a definição de inteligência, é inegável a clara sabedoria nos atos de criaturas que conseguem conviver em harmonia. Seja um processo parcialmente involuntário desenterrado por seus cérebros tão curiosos, ou por algum tipo de raciocínio real. O que deve ficar claro aqui é que em ambos os fatores são os mesmos. São sinapses que criam algo e geram algo, através do comportamento espelhado em um organismo vivo. A humanidade por anos rejeitou a ideia da ausência de uma mente presente. Nos comunicamos como nenhuma outra raça e organizamos nossos pensamentos em palavras e imagens, na maior parte do tempo, então deduzimos que os outros animais vivem o presente com raciocínios simples, baseados em imagens, sons, cheiros e impulsos. Não quero me precipitar em minhas conclusões, mas se os dados coletados pela minha equipe estiverem corretos- os documentos foram anexados - talvez os conceito de individualidade, consciência e realidade precisem ser repensados. Me sinto obrigado a repetir mais uma vez aqui o que já havia dito diversas vezes em nossas ligações, sobre o sigilo e a calma que esses documentos merecem. A última coisa que precisamos agora é das garras da mídia sensacionalista e tendenciosa.
Entender como os animais se relacionam é essencial para entender como o cérebro se relaciona com o resto do corpo e como essa relação acontece. É um órgão incrível, capaz de armazenar uma quantidade absurda de informação, fazer conexões entre as coisas, criar e abstrair de uma forma que não é vista em nenhum outro lugar do universo. É natural que tenha despertado a curiosidade de tantos que, como eu, mergulharam na jornada da loucura que é entender o funcionamento da mente humana.
É comum ver jovens cientistas estudando como o cérebro de outros animais funciona, tentando assim decifrar o funcionamento de nossa mente. Ou psicólogos que parecem ter quebrado o código que guarda o funcionamento da psique humana, mas sem nunca conseguir explicar como esses processos se originam no núcleo da essência humana, nos impulsos elétricos do chiclete cinzento que tem controle absoluto sobre nossos corpos. Por isso vou me adiantar e destacar a importância de diferenciar o humano dos outros animais. Por mais que esse aglomerado de bilhões de bilhões de células se pareça com o miolo craniano de qualquer outro ser vivo, descobrimos uma diferença básica, porém deveras importante, na composição quântica do órgão. É com muito entusiasmo que afirmo que o Microquantum foi capaz de realizar todas as façanhas esperadas na análise quântica da estrutura cerebral dos voluntários mas, os resultados, para nossa surpresa, divergiam da expectativa.
Quando os dados foram traduzidos pela máquina ficamos anestesiados demais para perceber o que havia de estranho naquilo. Era a primeira vez que a raça humana mergulhava nas águas do oceano quântico, as possibilidades pipocavam em minha mente. Tantas mecânicas incompreensíveis no papel poderiam ser observadas e estudadas, eu não sabia por onde começar. Estávamos fazendo história ali e éramos apenas duas dúzias de jovens numa sala abafada.
O baque da descoberta só veio uma semana depois, quando os relatórios chegaram. Vou usar a técnica do band-aid aqui e não irei complicar o que já não é fácil. Conseguimos captar algo que deveria ser uma anomalia no cérebro de um dos pacientes mas, para nossa surpresa, essas coisas estavam por todas as partes em todos os resultados. Coisas que não poderiam ser captadas através de outros métodos já conhecidos. É complicado entender a representação adotada pela Microquantum, já que estamos lidando com uma perspectiva que não é nossa, mas irei repetir o que o Dr. Barbosa comentou sobre após analisar o caso: “São como aranhas. Aranhas viscosas”
Realmente era o que parecia. Seja por pareidolia ou simplesmente pela natureza gostar de repetir esse tipo de padrão, mas aquelas coisas rastejavam pela superfície quântica carregando as células do órgão gerenciador como aranhas correm em teias. Elas pareciam saber exatamente o que vai aonde, e como gerar os impulsos elétricos que mandam essas células pelo corpo na velocidade da luz. Eram como partes de um relógio suíço.
Ninguém da equipe conseguiu bolar uma explicação lógica para o que estávamos vendo. Esperávamos descobertas maravilhosas com a nova máquina, mas… Isso? Estava ansioso para escanear outras coisas, mas o medo me consumia. Quem poderia imaginar os tipos de descobertas fantásticas e devastadoras que faríamos com a ajuda desse aparelho? Existia um novo universo para ser explorado. Quantas outras criaturas quânticas existem além dessas? Não eram feitos de nenhum tipo de matéria já registrada. Era um novo conceito de existência.
De certa forma, aquilo parecia algum tipo de mutualismo. As pequenas aranhas pareciam agir de forma independente e saber o que fazem. É fácil encontrar na natureza exemplos de mutualismo, seja em bactérias que ajudam plantas a conseguir nitrogênio em uma clareira qualquer, ou em peixes que se alimentam dos parasitas de peixes maiores. Me parece subjetivo entender como esse tipo de relação se estabelece. Assim como nossas células “perceberam” - de forma abstrata - que seria mais fácil gerenciar um organismo com ajuda de outras células, que desempenhassem um papel específico, alguns animais simplesmente compreendem que a convivência pode ser favorável. Analisando o cérebro de outras setenta espécies, não encontramos as tais criaturas. Parecem ser exclusividade nossa. Por isso afirmo que a mente humana e a dos outros animais trabalha de forma diferente.
Minha maior curiosidade é saber como a mente humana trabalharia sem aquelas coisas e em que momento elas foram introduzidas. Um leve presságio do que eu viria a descobrir a seguir inundou minha mente por dias, com possíveis respostas para essas perguntas. Cheguei perto de acertar.
O maior problema foi aceitar que não era proto-cooperação, pois não parecia que ambos se beneficiavam nesse processo. Também não parece que nós temos algum tipo de escolha quanto a presença desses organismos dentro de nossas mentes. Poderia ser algum tipo deturpado de inquilinismo, mas pra isso não poderíamos ser prejudicados, o que não parece ser o caso.
Após analisar todos os dados coletados inúmeras vezes finalmente comecei a compreender o modus operandi dessas coisas, o que me deixou enojado. Nunca conseguimos entender como os outros animais raciocinam, pois não é nada como a gente. Essas coisa criam uma base sensorial. Coletam e traduzem a luz captada por nossos olhos, somam com o tato, os cheiros, os sons e enfeitam com sentimentos abstratos, criando assim o que conhecemos como individualidade. A coisa que nos faz sentir como criaturas presas atrás de nossos próprios olhos. Regulam nossos hormônios e manipulam nossas memórias, nos fazem esquecer de coisas óbvias e lembrar de coisas que nunca aconteceram. Essas pragas - sim, pragas - nos fazem amar incondicionalmente e geram comportamentos destrutivos, por interesse próprio. Não sei em que período exato da evolução essas coisas de origem ainda desconhecida chegaram e nem porque escolheram justamente os humanos, mas é fácil entender agora o que nos distancia dos outros primatas. Meu palpite é que fomos nós pois já éramos bípedes e nossa estrutura permite pronunciar uma gama ampla de sons, o que facilita no desenvolvimento da sociedade.
Montaram uma nova estrutura de funcionamento do corpo e colocaram o “eu” em uma caixinha imaginária atrelada às cordas da quarta dimensão. Fomos os primeiros animais na Terra a captar as ondas do tempo, com esse nosso mecanismo bizarro que capta o presente milhares de vezes por segundo, como uma filmadora. Esse aglomerado de memórias, extremamente volátil, é o que essas pequenas coisas nos fazem entender por “eu”. Apenas marionetes no jogo de interesses quântico dessas criaturas de natureza tão perturbadora. A racionalidade e o livre-arbítrio são ilusões criadas para que a vida não se torne insuportável, como uma recompensa, um incentivo. Como fomos cegos por tanto tempo? Assumimos que somos cérebros controlando corpos, ou corpos com cérebros, quando vivemos uma realidade que não é essa todos os dias. O nosso cérebro nos faz sentir frio, medo, empatia, amor… Somos atores, bonecos, entende? Pela última vez, imploro que mantenha esses arquivos em sigilo, pois apesar de já não saber direito no que acreditar, ainda acredito que os seres humanos possam ser felizes vivendo essa ilusão projetada para nos aprisionar dentro de nós mesmos. Fico feliz em deixar a Microquantum e todo o pessoal do departamento nas mãos de uma pessoa como você, sei que fará um bom trabalho em desvendar os mistérios que compõem esse universo que chamamos de lar.
Mas para mim, chega.
É bom não ter uma família de verdade em momentos como esse, ou pessoas que iriam efetivamente sofrer pela minha falta. Então irei apenas agradecer a você e a todos que trabalharam comigo nos últimos quinze anos, foram momentos extremamente agradáveis. Com carinho.
Tom Sagan.
PS: Desculpe pela bagunça.